Eu sou o
resíduo de um despertamento que varreu a Barra do Agudo nos anos oitenta. Nunca
imaginei que minha vida sofreria tão grandes mudanças como as que se processaram
naquela ocasião e que alteraram todo o curso da mesma, e ainda hoje trazem
reflexos tão gloriosos quanto ao meu futuro.
Nasci num lar
chamado cristão, o qual, na verdade era uma mistura muito grande de doutrinas e
nos deixava confusos quanto à verdade. Meu pai, um homem rude do campo que não
tinha tempo para Deus, a não ser nos feriados e dias santos, ou nos tempos da
reza de terço e comemoração aos santos como em junho. Minha mãe, filha de uma
família espírita, recém convertida ao catolicismo, passava o dia todo ouvindo a
rádio Aparecida e nos ensinando o que aprendia dos padres.
Da minha infância,
tenho algumas lembranças aterrorizantes da repressão violenta que sofriam as
crianças por causa de suas naturais artes. Tenho também outras lembranças ternas
e meigas do encanto das primeiras descobertas sobre a vida, das primeiras
decepções, como o papai Noel e também de como amava minha primeira família,
mesmo tendo sido rejeitado como sempre me senti. Enfim, tudo o que aconteceu
contribuiu para a construção da pessoa que hoje me tornei. Por isso, sou grato
a Deus pelas provações e entendo que devo ser mais agradecido do que sentir
tristeza.
Minha mãe
sempre diz que fui um bebê super tranquilo que não dava o mínimo trabalho. Nem
de fome chorava! Conta que certa vez esqueceu-se de mim e, ao lembrar-se por volta
das quinze horas, correu a preparar uma suculenta mamadeira de maizena e eu
liquidei-a.
Quanto ao mais,
minha memória remonta por volta dos quatro anos e sempre me vejo assustado com
tudo e com todos. Fossem as surras que meus irmãos mais velhos levavam de vez
em quando, fossemos meninos maiores que gostavam de judiar dos menores, fosse o
terror da noite macabra e ruidosa do sertão, das longas noites de calor nas
quais eu me via obrigado a cobrir a cabeça com o cobertor para escapar dos
demônios que poderiam invadir nosso quarto para nos arrastar para o inferno, ou
os lobisomens, ou as mulas-sem-cabeça que passariam pelo buraco da fechadura.
Deus, pra mim,
era um ser distante e desinteressado do mundo das crianças como os adultos que
eu conhecia então.
Depois, veio o
desejo de ir para a escola! Queria aprender a ler! Queria dominar a leitura das
historias de contos de fadas e viver naquela ilha da fantasia que minha própria
imaginação criava.
O Natal era um
encanto tão cheio de magia, pois todos os problemas se resolveriam com um
“simples” brinquedo que ganhasse do Papai Noel. Só que ele ia apenas no sítio
dos Nacamura que moravam uns cem metros longe de nossa casa. Porém, nunca
fiquei aborrecido mais do que cinco minutos. Acho que, inconscientemente, eu
estava conformado com aquela vida pobre que vivia. Lembro-me que sentia verdadeiro
pavor em pensar que minha mãe poderia morrer.
Minha ida à
escola foi um encanto para mim. Abrir minha bolsa e pegar meus cadernos de
brochura, meu lápis, minha borracha e minha caixinha de lápis de cor de seis
cores era minha maior alegria. Contava os lápis e dizia em voz alta as cores de
cada um deles com a maior empolgação. Os meninos ricos nunca saberão dessa
felicidade que senti.
A noite sempre
vinha cheia de maus agouros e era exatamente por isso que, quando meu pai
pegava a Cantena e nos chamava para rezar, eu sentia um certo alívio porque
cria que aquelas rezas espantariam os demônios que rondavam nossa casa.
Ah, como eu
admirava meu pai! Era um herói, sabia tudo, podia tudo, era o homem mais
valente que eu jamais conheceria, era legal, menos quando sua cinta deixava
marcas de fogo em minhas pernas que eu tentava proteger com as mãos para
receber nelas os golpes de fogo! Quanto terror!
Até hoje eu não
sei se era feliz ou somente sinto o desejo de voltar lá e corrigir o modo de
vida daquele menino aterrorizado! Abraçar aquele pobre menino carente e dizer a
ele; “Você nunca estará sozinho! Jesus te ama! E outras pessoas aprenderão a
amar você também! Você tem muito potencial e Deus está usando algumas
circunstâncias para moldar você!” Nem que fosse somente para fazê-lo sorrir
mesmo que fosse por um instante.
Quantas
decepções, eu tive na vida!