A História da Igreja pode ser vista de dois ângulos:
O primeiro - a Igreja da
visibilidade, da conquista, do poder temporal, dos palácios, dos papas e
príncipes.
O segundo - a Igreja da
periferia, onde militam santos, profetas e mártires.
É assim desde o princípio, o
mover de Deus estava entre o povo simples da Galileia e não no centro do poder
religioso em Jerusalém. Mais tarde, estava em regiões remotas entre os Pais do
Deserto, e não nos templos e palácios de Constantino.
E assim segue o mover de Deus
através da História: em Assis e em Wittemberg e não em Roma. Durante a segunda
guerra mundial o testemunho cristão está no cárcere com Dietrich Bonhoeffer e
não entre os pastores adesistas do nazismo.
Hoje vemos uma Igreja numerosa,
com visibilidade na mídia, cortejando o poder político, envolvida numa
gigantesca teia de negócios financeiros. Outro dia, ouvi o seguinte diálogo
numa mesa de restaurante: "Temos 20 milhões para investir neste novo
projeto. Já alugamos o local, só precisa de uma boa reforma. Vamos dotá-lo de
todos os recursos, poltronas confortáveis, salas funcionais, ar condicionado,
multimídia, ar condicionado e estacionamento. Vamos enviar o Pr. Tal para lá.
Ele é jovem, ambicioso, persuasivo e já demonstrou a que veio. O louvor, vamos
terceirizar. Já falei com a Banda Tal e eles topam por dois mil reais mensais.
A gente não tem que se preocupar com nada, nem com o equipamento de som que
eles fornecem. Com o apoio do nosso programa de rádio minha previsão é que em
seis meses já pagamos o investimento e estamos faturando”.
Confesso minha aflição ao
olhar para os descaminhos da Igreja, mas também reafirmo minha esperança ao
olhar para os santos e profetas que militam na contramão da Igreja de mercado.
São exilados na História
oficial, anônimos, gente simples e comum, vivendo a fé cristã com santidade e
compromisso, espalhados por todos os cantos do Brasil. Os verdadeiros cristãos
estão escondidos, não há espaço para eles na Igreja do marketing e do
desempenho. Não aparecem na mídia evangélica, não são convidados para as
grandes conferências. Estão mais para o perfil bíblico de Hebreus 11: “homens
dos quais o mundo não era digno, errantes pelos desertos (do sertão
nordestino), pelos montes (nas favelas urbanas), pelas covas (os bolsões de
violência e miséria), pelos antros da terra (entre pecadores)”.
Sim, estou muito aflito, mas
também cheio de esperança. O Brasil está tornando um país de muitos cristãos,
mas sem cristianismo. Não dá mais para conviver com isto. Não se trata de
ressentimento, mas de indignação, de voz que clama, que grita, que não se
conforma, que deseja muito que aquela porção da Igreja Evangélica Brasileira
que caiu na mão de aventureiros e negociantes seja devolvida aos santos e aos
profetas.
No futuro, os historiadores
se debruçarão, pesquisarão e escreverão sobre a Igreja neste século. E, como
sempre, a História será contada dos dois ângulos: a igreja do poder e da
conquista, e a igreja da periferia, santa e profética.
João Moreira Salles fez um
comovente documentário sobre uma igreja na periferia de Santa Cruz zona rural
do Rio de Janeiro. Ele esteve naquela comunidade durante um ano e nos conta a
história de um pastor anônimo, não remunerado e um punhado de crentes plantando
uma igreja numa área de invasão. Vamos conhecendo os personagens reais:
pedreiros, donas de casa, zeladores, etc, que alcançados pelo Evangelho mudem
de vida, são curados e se tornam missionários, presbíteros, diáconos. E com
consequência desta presença o lugar vai se transformando, adultos são
alfabetizados, crianças vão à escola, o bairro se valoriza.
Sim, estou aflito em ver os
desmandos da Igreja do poder, mas também cheio de esperança, pois aqui e
ali me deparo, na periferia, com o verdadeiro testemunho de Jesus Cristo.
Pequenas igrejas, agências missionárias, ongs humanitárias evangélicas,
pastores e missionários anônimos. São muitas as manifestações da genuína
presença do Espírito Santo entre nós. A maior parte na periferia entre crentes
pobres e anônimos, e quase nunca na igreja que está na mídia, a igreja da fama,
do poder e das riquezas.
Que possamos humildemente
reconhecer a tentação do poder religioso que está dentro de nós. E resistindo
aos encantos dos palácios de Jerusalém nos deixemos levar pelo Espírito de
Cristo para as estradas empoeiradas da Galileia. Sem temer a perseguição em
Jerusalém, que certamente surge quando os profetas da periferia confrontam os
fariseus e os mercadores do templo.
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