“Falando Ele ainda à multidão, sua mãe e seus irmãos estavam
do lado de fora, pretendendo falar-Lhe. Disse-Lhe alguém: ‘Tua mãe e teus
irmãos estão lá fora e querem falar-Te’. Porém Ele respondeu ao que Lhe dera o
aviso. ‘Quem é Minha mãe e quem são Meus irmãos? ’ E, estendendo a mão para os
discípulos, disse: ‘Aqui estão Minha mãe e Meus irmãos. Pois todo aquele que
fizer a vontade de Meu Pai que está nos céus, esse é Meu irmão, irmã e mãe’. ”
(Mt 12.46-50.)
Jesus estava em Sua segunda viagem pela Galileia,
acompanhado de Seus discípulos e algumas mulheres que O serviam com os seus
bens. Ele curou um endemoninhado cego e mudo. Os fariseus não gostaram disto e O
acusaram de estar sendo usado por Belzebu, o príncipe dos demônios. Jesus os
repreende severamente. Eles rejeitam o Seu ensino, mas pedem um sinal. Jesus
não lhes dá nenhum sinal, antes, os repreende ainda mais severamente,
desmascarando a sua incredulidade. Você já se perguntou por que todo incrédulo
pede sinal?
Eles ficaram muito irados, e só não mataram a Jesus por temer a multidão que
estava com Ele. Mas, começam a tramar contra a vida de Jesus. Seus familiares
ficaram sabendo disto, e temendo o pior, foram decididos a tirá-lo de lá. Tentaram
justificar aos Seus algozes dizendo que Jesus estava fora de Si (Mc 3.20-22). É
neste clima tenso que há o desenrolar desta história.
Jesus estava numa casa e, como sempre, grande multidão O acompanhava, de sorte
que não podia nem parar para comer com os discípulos. Após a discussão com os
escribas e fariseus, o clima geral era de expectativa, mas ele ensinava tranquilamente.
Neste ínterim, chegam Seus irmãos e Sua mãe e mandam chamá-lO, pois não
conseguiam entrar na casa que estava lotada. Alguém O interrompe e dá o recado.
Jesus não para de ensinar, somente ensina outra lição que não estava no script.
Aqui fica um princípio aos pregadores e mestres que devem, sem dúvida, se
preparar, mas também devem estar atentos às ocasiões que se apresentam. Muitas
vezes uma lição diferente daquela que foi planejada se fará necessário.
Precisamos aproveitar bem as oportunidades que surgem para ensinar às pessoas
sobre Deus.
O Mestre por excelência – Jesus – nunca desperdiçou uma oportunidade, por mais
trivial que parecesse. Ele sempre aproveitou cada ocasião para ensinar
preciosas lições espirituais aos que estavam junto dEle. Qualquer jumentinho,
barco, monte, casa, estrada, pedra, era o púlpito de Jesus. Sua vida ensinava
tanto quanto as Suas palavras. Observá-lO, já era um grande aprendizado. Que
mestre, que pastor, que pregador! Ensina com a vida e com as palavras, a
qualquer pessoa, em qualquer ocasião e lugar. Daí Seu grande poder, influência
e autoridade.
Muitos, hoje, precisam de um púlpito, de um auditório, de um estádio, de uma
grande igreja e, principalmente, de multidões, para que possam ensinar e
pregar. Mas, para Jesus, cada pergunta, cada circunstância, cada acontecimento,
por mais fortuito, não Lhe passava despercebido, e se transformavam em grandes
e poderosas lições.
Encontro entre família
Há nesta história, um interessante encontro entre a família
física e a família espiritual de Jesus. A física, dizendo a Jesus o que fazer,
dando ordens, e fazendo por Ele, como sendo senhores. A espiritual, ouvindo o
que Jesus tem a dizer e obedecendo as Suas ordens, pois, sendo Ele Senhor, é
quem faz e manda. A nossa relação com Cristo tem sido física ou espiritual?
Se perguntarmos: quem no texto é a família de Jesus? Certamente teremos duas
respostas. A família física é os que estão do lado de fora chamando a Jesus; a
família espiritual, o próprio Jesus responde apontando para os Seus discípulos.
Pressionando Jesus
Na sua imaginação, o que se passou na mente dos parentes de
Jesus? Seus irmãos não acreditavam muito nEle, não concordavam com Ele, e até O
achavam meio maluco (segundo lemos em João 7.1-5). Isto não quer dizer que
queriam vê-lO ser linchado ou morto. Então, convenceram Maria, Sua mãe, a irem
chamá-lO e a levá-lO de volta para casa enquanto ainda havia tempo. Porém, na
impossibilidade de entrar na casa para falar com Ele, apelam para o trunfo que
tinham, Seu parentesco sanguíneo. Nós somos Seus parentes, portanto, temos
prioridade e autoridade sobre Ele. Ele tem que parar o que estiver fazendo para
vir falar conosco.
Nós também, constantemente, apelamos para Jesus usando os nossos trunfos.
Gostamos de apresentar argumentos para pressioná-lO a atender-nos mais
depressa. Usamos argumentos para convencê-lO a fazer o que queremos. Sou
dizimista, orei no monte, fiquei quarenta dias em jejum, sou regular na igreja,
sou uma boa pessoa, também sou filho de Deus. Não faltam os mais ousados que
determinam, exigem, ordenam. Tudo é como se estivéssemos dizendo: “Senhor, pare
já o que estiver fazendo e venha me atender. Agora! Faça o que eu digo, seja
feita a minha vontade!”
Precisamos urgentemente aprender que: Jesus não Se impressiona com os nossos
argumentos. Ninguém tem maiores privilégios que outros diante dEle e Ele não
precisa que Lhe digamos o que fazer. Ele sabe o que é prioridade. Ele sabe o
que é mais importante. Suas prioridades são espirituais e não materiais. Ele
não faz a nossa vontade, mas a vontade do Pai.
Boas intenções
Vimos que a família terrena de Jesus vem em seu socorro para
salvá-lo. É até hilário pensar no salvador precisando de salvação. Eles se
esqueceram que é Ele quem salva, não se pode usurpar o Seu papel. Eles
precisavam crer que Ele não veio ao mundo para morrer num levante popular ou,
numa tragédia, sem cumprir sua missão.
Não podemos negar que os Seus parentes O amavam e estavam bem intencionados,
mas, tornavam-se um grande empecilho para Jesus. A intenção era boa, mas, no
fundo, demonstrava incredulidade ou ingenuidade, por pensar que, talvez, Ele
não fosse capaz de realizar o que prometeu e precisava de uma forcinha.
Revelaram uma tremenda falta de fé. Somos nós quem precisamos da Sua ajuda e
salvação. Somos nós quem precisamos que Ele venha em nosso socorro. Ele não
precisa que o defendamos (como Pedro também tentou fazer e foi repreendido -
Mateus 26:51-54).
A reação de Jesus
Jesus então aponta para os Seus discípulos e declara: “Estes
são a Minha família, mas não somente estes, qualquer um pode ser a Minha
família. Não há uns poucos privilegiados. Todos podem tornar-se. Só há uma
condição; que façam a vontade do Meu Pai. Se assim fizer, este é Minha família.
”
E você, também faz parte da família de Jesus? Quem faz parte desta família são
os que fazem a vontade de Deus. Você faz a vontade de Deus? Se a sua resposta
for sim, você faz parte da família de Jesus; se não, você pode se tornar parte
da família espiritual de Jesus fazendo a vontade de Deus.
No texto paralelo a este que lemos (escrito em Lucas 8.21), há uma explicação
mais clara do que Jesus quis dizer com fazer a vontade de Deus. Nele, Jesus
diz: “Minha mãe e Meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a
executam”.
Você tem ouvido a Palavra de Deus? Tem colocado em prática? Esta é a condição
para tornar-se parte da família espiritual de Jesus. É isto o que significa
fazer a vontade de Deus.
Poucos tiveram o privilégio de fazer parte da família terrena de Jesus, quando Ele
desceu do céu e Se fez carne, habitando entre nós. Mas, muitos podem ter o
grande privilégio de fazer parte da família espiritual de Jesus, fazendo a
vontade de Deus. Noutras palavras, ouvindo a Palavra de Deus e a colocando em
prática. Este segundo privilégio, além de ser eterno, é bem maior que o
primeiro. Experimente!
Jair Souza Leal
Pastor auxiliar na Igreja Batista Memorial do bairro Industrial, Contagem (MG).
Bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica das Assembleias de Deus. Pedagogo
em formação – PUC/MG. Professor de Introdução à Bíblia do Instituto Teológico
Quadrangular. Autor do livro “Quatro homens e um segredo”.
jairleal@cedro.ind.br