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quinta-feira, 30 de junho de 2022

Amor no século da pressa

Quem não gosta de ser amado? Ser paparicado? Receber atenção especial, presentinhos e beijinhos doces?

Quem não gosta de surpresinhas gostosas, beijo na boca e abraços apertados?

Quem é que de livre e espontânea vontade prefere a solidão a uma boa companhia?

Ora, todo mundo quer uma boa companhia e de preferência para todo sempre. Mas conviver com essa "boa companhia" diariamente por 3, 5, 10, 15, 25 anos é que é o difícil. No começo dos relacionamentos e até um ano de vida amorosa, tudo são mais ou menos flores.

Não adianta você dizer depois de três meses que "encontrou o amor de sua vida", porque o amor precisa de convivência para ser devidamente testado. Nesse mundo maluco e agitado, as pessoas estão se encontrando hoje, se amando amanhã e entrando em crise depois de amanhã, uma coisa frenética e louca que tem feito muita gente, que se julgava equilibrada, perder os parafusos e fazer muita besteira.

Paixão, loucura e obsessão: três dos mais perigosos ingredientes que estão crescendo nos relacionamentos de hoje em dia por causa da velocidade das informações e o medo de ficar sozinho.

As pessoas não estão conseguindo conviver sozinhas com seus defeitos, vícios e qualidades, e partem desesperadamente para encontrar alguém, a tal da alma gêmea, e se entregam muitas vezes aos primeiros pares de olhos que piscam para o seu lado.

Vale tudo nessa guerra, chat, carta, agência, festas e até roubar o parceiro de alguém. É uma guerra para não ficar sozinho.

Medo? Com medo de se encarar no espelho e perceber as próprias deficiências? Com medo de encarar a vida e suas lutas? Então a pessoa consegue alguém (ou acha que está nascendo um grande amor), fecha os olhos para a realidade e começa a viver um sonho, trancado em si.

Mesmo nos quartos e no seu egoísmo, a pessoa transfere toda a sua carência para o (a) parceiro (a), transfere a responsabilidade de ser feliz para uma pessoa, que, na verdade ela mal conhece.

Então, um belo dia, vem o espanto, a realidade, o caso melado, o "falso amor" acaba, e você que apostou todas as suas fichas nesse romance fica sem chão, sem eira, nem beira, e o pior: muitas vezes fica sem vontade de viver.

Pobre povo desse século da pressa! Precisamos urgentemente voltar o costume "antigo" de "ter tempo", de dar um tempo para o tempo nos mostrar quem são as pessoas.

Namorar é conhecer, é reconhecer, é a época das pesquisas, do reconhecimento...

Se as pessoas não se derem um tempo, não buscarem se conhecer mais, logo em breve teremos milhares de consultórios lotados de "depressivos" e cemitérios cada vez mais cheios de suicidas, "seres cansados de si mesmos".

Faça um bem para si mesmo e para os outros, quando iniciar um relacionamento procure dar tempo para tudo: passeie muito de mãos dadas, converse mais sobre gostos e preferências, conheça a família e mostre a sua, descubra os hábitos e costumes.

Parece careta demais? Que nada! Isso é a realidade que pode salvar o relacionamento e muitas vidas.

Pense nisso e se gostar, passe essa mensagem para frente; quem sabe se juntos, não ajudamos alguém carente de amor a encontrar um motivo para ser feliz?

Muita pretensão? Não, vontade de te ver feliz.

 

A. D.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Aflição e esperança

 A História da Igreja pode ser vista de dois ângulos:

O primeiro - a Igreja da visibilidade, da conquista, do poder temporal, dos palácios, dos papas e príncipes.

O segundo - a Igreja da periferia, onde militam santos, profetas e mártires.

É assim desde o princípio, o mover de Deus estava entre o povo simples da Galileia e não no centro do poder religioso em Jerusalém. Mais tarde, estava em regiões remotas entre os Pais do Deserto, e não nos templos e palácios de Constantino.

E assim segue o mover de Deus através da História: em Assis e em Wittemberg e não em Roma. Durante a segunda guerra mundial o testemunho cristão está no cárcere com Dietrich Bonhoeffer e não entre os pastores adesistas do nazismo.

Hoje vemos uma Igreja numerosa, com visibilidade na mídia, cortejando o poder político, envolvida numa gigantesca teia de negócios financeiros. Outro dia, ouvi o seguinte diálogo numa mesa de restaurante: "Temos 20 milhões para investir neste novo projeto. Já alugamos o local, só precisa de uma boa reforma. Vamos dotá-lo de todos os recursos, poltronas confortáveis, salas funcionais, ar condicionado, multimídia, ar condicionado e estacionamento. Vamos enviar o Pr. Tal para lá. Ele é jovem, ambicioso, persuasivo e já demonstrou a que veio. O louvor, vamos terceirizar. Já falei com a Banda Tal e eles topam por dois mil reais mensais. A gente não tem que se preocupar com nada, nem com o equipamento de som que eles fornecem. Com o apoio do nosso programa de rádio minha previsão é que em seis meses já pagamos o investimento e estamos faturando”.

Confesso minha aflição ao olhar para os descaminhos da Igreja, mas também reafirmo minha esperança ao olhar para os santos e profetas que militam na contramão da Igreja de mercado.

São exilados na História oficial, anônimos, gente simples e comum, vivendo a fé cristã com santidade e compromisso, espalhados por todos os cantos do Brasil. Os verdadeiros cristãos estão escondidos, não há espaço para eles na Igreja do marketing e do desempenho. Não aparecem na mídia evangélica, não são convidados para as grandes conferências. Estão mais para o perfil bíblico de Hebreus 11: “homens dos quais o mundo não era digno, errantes pelos desertos (do sertão nordestino), pelos montes (nas favelas urbanas), pelas covas (os bolsões de violência e miséria), pelos antros da terra (entre pecadores)”.

Sim, estou muito aflito, mas também cheio de esperança. O Brasil está tornando um país de muitos cristãos, mas sem cristianismo. Não dá mais para conviver com isto. Não se trata de ressentimento, mas de indignação, de voz que clama, que grita, que não se conforma, que deseja muito que aquela porção da Igreja Evangélica Brasileira que caiu na mão de aventureiros e negociantes seja devolvida aos santos e aos profetas.

No futuro, os historiadores se debruçarão, pesquisarão e escreverão sobre a Igreja neste século. E, como sempre, a História será contada dos dois ângulos: a igreja do poder e da conquista, e a igreja da periferia, santa e profética.

João Moreira Salles fez um comovente documentário sobre uma igreja na periferia de Santa Cruz zona rural do Rio de Janeiro. Ele esteve naquela comunidade durante um ano e nos conta a história de um pastor anônimo, não remunerado e um punhado de crentes plantando uma igreja numa área de invasão. Vamos conhecendo os personagens reais: pedreiros, donas de casa, zeladores, etc, que alcançados pelo Evangelho mudem de vida, são curados e se tornam missionários, presbíteros, diáconos. E com consequência desta presença o lugar vai se transformando, adultos são alfabetizados, crianças vão à escola, o bairro se valoriza.

Sim, estou aflito em ver os desmandos da Igreja do poder, mas também cheio de esperança, pois aqui e ali me deparo, na periferia, com o verdadeiro testemunho de Jesus Cristo. Pequenas igrejas, agências missionárias, ongs humanitárias evangélicas, pastores e missionários anônimos. São muitas as manifestações da genuína presença do Espírito Santo entre nós. A maior parte na periferia entre crentes pobres e anônimos, e quase nunca na igreja que está na mídia, a igreja da fama, do poder e das riquezas.

Que possamos humildemente reconhecer a tentação do poder religioso que está dentro de nós. E resistindo aos encantos dos palácios de Jerusalém nos deixemos levar pelo Espírito de Cristo para as estradas empoeiradas da Galileia. Sem temer a perseguição em Jerusalém, que certamente surge quando os profetas da periferia confrontam os fariseus e os mercadores do templo.

  

Osmar Ludovico da Silva