Durante aproximadamente dois meses fiquei sem ouvir de um dos ouvidos. A causa disso foi um entupimento que me criou uma série de problemas para a qual eu não conseguia encontrar uma solução lógica.
Quando percebi que estava com esse problema fui à procura de ajuda no pronto socorro de minha cidade natal. O médico que me atendeu me orientou a usar Cerumin, uma solução que deve ser pingada no ouvido por três dias antes de ser feita a lavagem.
Fui para minha casa e fiz o que o médico me recomendou. Porém, após três dias de uso, era domingo e achei muito embaraçoso incomodar alguém no domingo com esse tipo de trabalho. Assim deixei passar mais um dia e fui na segunda-feira.
Quando cheguei naquele pronto socorro, já pronto para fazer a lavagem, falei com a atendente para que ela pudesse marcar a lavagem, ou a consulta, se achasse que isso seria necessário. Ela, porém, me disse:
- Miguel, quem está atendendo é a Drª (xxx) e ela não faz esse tipo de trabalho. Você não quer voltar amanhã? Porque o Dr. (xxx) estará atendendo. Ele é o esposo dela e ele fará a lavagem.
- Tudo bem, disse eu. Amanhã, eu virei.
Eu continuei surdo.
E, como prometido, no outro dia de manhã, lá estava eu esperando sair dali ouvindo normalmente e sem aquele chiado que fica o tempo todo incomodando no ouvido entupido. Ela marcou a consulta e eu esperei pacientemente para ser atendido.
Então, quando o médico me chamou, eu entrei em seu consultório e fui relatando meu problema. Quando ele me recomendou o uso do Cerumin, eu disse a ele que já estava usando o remédio há mais de três dias. Então, ele me perguntou:
- E por que nom veio antes?
Respondi:
- Dr., o terceiro dia caiu no domingo e eu não quis incomodar vocês com isso nesse dia.
- E por que nom veio ontem, disse ele bem contrariado.
- Eu vim ontem, respondi, mas a atendente (xxx) disse que a sua esposa, Drª. (xxx) não fazia esse tipo de trabalho e me mandou voltar hoje.
Ele não disse mais nada. Saiu com tudo do consultório e a enfermeira de nome (xxx) ia passando. Ele começou a fazer imprecações contra ela bem ali no corredor. Como ela negasse o fato, ele perguntou a mim:
- Foi essa aqui?
Eu disse:
- Não, senhor, foi a atendente (xxx).
Eu continuava surdo.
Ele foi até a portaria e xingou muito a atendente (xxx). Eu fiquei bastante constrangido com tudo aquilo. Não sabia o que fazer. Porque sou professor e, às vezes, tenho que lidar com situações bastante adversas na sala de aula. Mas, nunca descarrego num inocente minha zanga. Se preciso dar uma bronca em um aluno, sei muito bem que os outros não precisam ser rechaçados por causa do bagunceiro.
Quando voltou, ele pediu desculpas, mas continuou dizendo que era um tal de empurrar serviço de um para o outro ali. Todavia, chamou uma enfermeira, pediu que preparasse o soro fisiológico e logo o aplicou no meu ouvido.
Só que o soro estava gelado. Como saiu da geladeira, ele foi posto na seringa e injetado em meu ouvido. Apenas me machucou o ouvido e continuei sem ouvir e com o mesmo zunido característico. Quando me perguntou se estava melhor, eu disse:
- Doutor, meu ouvido continua entupido. Está zunindo!
Mas ele retrucou:
- Não, não está! Esse zunido é da pressão. Você tem pressão alta (ele não havia medido minha pressão) e deve ter labirintite. Vem cá que vou te receitar remédio para a pressão e para a labirintite.
Então me deu uma receita com pelo menos três tipos de remédios diferentes que eu nem cheguei a comprar. Saindo do consultório sem retrucar, pois eu sabia que não adiantava discutir com quem é “autoridade” no ramo, joguei fora a receita e fui para minha casa.
Eu continuei surdo.
Continuei usando o Cerumin e, uma semana depois, voltei ao pronto socorro esperando encontrar outro médico para resolver meu problema.
Quando cheguei lá, encontrei uma atendente furiosa comigo por ter levado bronca do médico.
- Olha só, disse ela, eu tentei te ajudar e você me fez levar bronca! É isso que a gente ganha tentando ajudar as pessoas. Ele quase me bateu e não está falando comigo.
- O que você queria que eu fizesse, perguntei.
- Ora, não precisava dizer que eu mandei você voltar no outro dia!
- Mas você mandou!
- Sim, mas não era pra dizer! Agora, sente-se que depois eu marco sua consulta com uma médica que vem aí, mas não sei se ela vai fazer essa lavagem.
Eu continuei surdo.
Diante desse quadro, resolvi ir embora para casa e procurar outro tipo de ajuda.
Fui então numa farmácia onde o farmacêutico fazia lavagem. Ele cobrou-me R$ 10,00 e fez a lavagem, mas resolveu lavar o outro porque dizia que o outro apresentava indícios de entupimento, porém, como outro não estava preparado para isso, acabou foi entupindo de vez. Ou seja, abriu um e fechou o outro.
Continuei surdo do mesmo jeito.
De volta para Sumaré, comecei a trabalhar e continuei usando o Cerumin, dessa vez, no ouvido direito. Na primeira oportunidade que tive, resolvi sair de manhã e procurar o pronto socorro de Sumaré. Caminhei mais ou menos meia hora para chegar até lá somente para ouvir que não se fazia lavagem no ouvido, que isso deveria ser feito por um especialista em ouvido.
Eu continuei surdo.
Saí dali completamente desanimado porque, se ia usar o convênio, eu sabia muito bem que demoraria pelo menos uns dois meses para ser atendido.
Quase chegando em casa, passei em frente ao Centro de Saúde II de Sumaré, e resolvi pedir ajuda ali.
O atendimento que recebi ali foi simplesmente incrível diante das situações passadas. Fui recebido e tratado com toda cortesia, e mandaram-me voltar no outro dia às 10:30h para fazer a lavagem.
Fui no dia e horário marcado e passei pelo médico que fez imediatamente a lavagem no meu ouvido deixando-me completamente restaurado. Ainda teve a gentileza de examinar o outro ouvido para ver se estava tudo bem!
Pergunta que não quer calar:
Por que o Pronto Socorro não pode me atender e o Centro de Saúde pode?
Por que um médico não quer fazer lavagem no ouvido de um paciente e outro o faz com muito amor na profissão que escolheu?
O que impede alguém de exercer sua profissão se foi ele mesmo quem a escolheu?
Por que não fazem o trabalho com amor naquilo que faz?
Que droga de saúde é essa que o brasileiro tem que enfrentar todos os dias depois de pagar tantos impostos e tantas taxas?
Que porcaria de profissionais temos nesse nosso Brasil?!
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