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terça-feira, 24 de agosto de 2021

Da série: A Escolha (Miguel R. Silva)

Capítulo I

A saga de uma família


      Nas imediações de Terra Roxa, numa região bem próxima ao rio Pardo, vivia um senhor por nome Inocêncio, cujos avós tinham vindo da Itália quando houve aquela enchente de imigrantes. Chegando ao Brasil, vieram morar em Bebedouro.

Depois foram adentrando o sertão na esperança de possuir alguma herdade das terras que futuramente seriam distribuídas. E assim foram se expondo cada vez mais ao perigo das feras que infestavam aquela vasta e densa mata ao redor de Bebedouro.

Alguns anos se passaram. Aquele casal faleceu sem ter conseguido realizar seu sonho, mas deixou um casal de filhos que continuou lutando incansavelmente por aquilo que seus pais não conseguiram. Ambos se casaram e tiveram filhos, os quais continuaram a luta feroz contra a natureza e contra o egoísmo humano sem conseguir nenhum resultado. Pois, enquanto as terras não tinham valor, qualquer um podia ser proprietário, mas, quando fossem avaliadas de alguma forma, apareceriam os pretensos proprietários com leis, contratos, termos de doações ou compras, etc., expulsando os pobres diabos que acabavam fazendo a trouxa e sumindo no sertão para preservarem as suas vidas e as de suas famílias. Isso, quando não faziam acordo com os espertalhões e passavam a trabalhar para eles, muitas vezes por um salário de fome.

E assim foi que, num belo dia, seu Inocêncio, que há tempos pensava em ir ao cartório registrar suas terras, viu-se compelido a concordar em trabalhar para aquele fazendeiro que, pelos documentos exibidos, era dono de suas terras há quase cinquenta anos. O que poderia fazer um homem ignorante do sertão contra um fazendeiro letrado que tinha em suas mãos todos os documentos que comprovavam que era ele o legítimo dono daquela propriedade? Render-se-ia e o serviria na lavoura em troca de um salário que seria combinado ainda mais tarde. Passou a frequentar o botequim da vila e a fazer amigos que afogavam as decepções e amarguras da vida num copo de cachaça nos fins de semana.

Sua esposa, D. Sabina, tristemente observava o marido quando este chegava caindo do cavalo e falando asneiras. Que lhe restava fazer senão ajudá-lo a descer e dar-lhe um leito até que passasse a bebedeira? Conselhos?! Não adiantava! Já nem tentava mais. Nunca seria ouvida! Se ao menos tivesse esperança de que isso acabaria algum dia... Mas ela não sabia. Não poderia saber nunca até quando aquele pobre coitado com quem partilhara sonhos e ilusões de uma vida melhor continuaria aquele suicídio lento e doloroso, e isso era o mais triste da história.

Foi nesse clima de tensão e frustração que nasceu Constâncio. Sua infância foi marcada pelo descontentamento de ver uma mãe triste e desiludida com a vida, sempre calada, pelos cantos da casa, sem ao menos saber o que fazer para remediar a situação. Se ao menos pudesse fazê-la sorrir... Mas nunca conseguia tirar mais do que um “HUMM!” com seus gracejos e piadas. Foi crescendo sonhador e cheio de esperanças. Achava que o mundo era uma grande bola dourada. Sonhava em ser alguém na vida, estudar, trabalhar muito, conquistar fortuna e ser famoso. Gostava de ler e lia tudo o que lhe caía nas mãos. Amava os livros e sonhava que um dia seria escritor. Escreveria a história de seus pais como um drama muito sensível. Venderia muitos livros e ficaria rico e famoso. Daria então aos seus pais todo conforto que eles ainda não conheciam. Nunca mais veria seu pai em situações embaraçosas e tristes. Detestava vê-lo humilhado concordando com a cabeça com tudo que o patrão lhe ordenava do alto do seu cavalo, ou de dentro do seu carro. Um dia seu pai também teria um carro e seria presente seu. Teriam uma linda e grande casa na cidade e comprariam tudo que tivessem vontade.

Vivia este jovem com tais ideais em seus pensamentos quando seus pais resolveram mudar para a cidade. Ele contava dez anos de idade e frequentava a 4ª série. Tudo corria bem em sua vida de garoto, se bem que, às vezes, o tempo fechava em sua casa. Seu pai era um homem muito bravo e sua mãe uma mulher tímida e medrosa que só reagia contra a violência quando o marido chegava bêbado.

O pai, seu Inocêncio, não se sabe por que cargas d’água resolveu sair com essa de mudarem-se para a cidade. A mãe, achando por bem estarem perto de algum vizinho que lhes prestasse socorro em caso de briga, ou mesmo de enfermidade, concordou logo. Imaginava também que na cidade seu Inocêncio daria outro rumo para sua vida e, apesar das contradições da vida, nisso ela estava certa.

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