Capítulo I
A
saga de uma família
Nas imediações de Terra Roxa, numa região bem próxima ao rio Pardo, vivia um senhor por nome Inocêncio, cujos avós tinham vindo da Itália quando houve aquela enchente de imigrantes. Chegando ao Brasil, vieram morar em Bebedouro.
Depois foram
adentrando o sertão na esperança de possuir alguma herdade das terras que futuramente
seriam distribuídas. E assim foram se expondo cada vez mais ao perigo das feras
que infestavam aquela vasta e densa mata ao redor de Bebedouro.
Alguns anos se
passaram. Aquele casal faleceu sem ter conseguido realizar seu sonho, mas
deixou um casal de filhos que continuou lutando incansavelmente por aquilo que
seus pais não conseguiram. Ambos se casaram e tiveram filhos, os quais
continuaram a luta feroz contra a natureza e contra o egoísmo humano sem
conseguir nenhum resultado. Pois, enquanto as terras não tinham valor, qualquer
um podia ser proprietário, mas, quando fossem avaliadas de alguma forma, apareceriam
os pretensos proprietários com leis, contratos, termos de doações ou compras,
etc., expulsando os pobres diabos que acabavam fazendo a trouxa e sumindo no
sertão para preservarem as suas vidas e as de suas famílias. Isso, quando não
faziam acordo com os espertalhões e passavam a trabalhar para eles, muitas
vezes por um salário de fome.
E assim foi que, num belo dia, seu Inocêncio, que há
tempos pensava em ir ao cartório registrar suas terras, viu-se compelido a concordar
em trabalhar para aquele fazendeiro que, pelos documentos exibidos, era dono de
suas terras há quase cinquenta anos. O que poderia fazer um homem ignorante do
sertão contra um fazendeiro letrado que tinha em suas mãos todos os documentos
que comprovavam que era ele o legítimo dono daquela propriedade? Render-se-ia e
o serviria na lavoura em troca de um salário que seria combinado ainda mais
tarde. Passou a frequentar o botequim da vila e a fazer amigos que afogavam as
decepções e amarguras da vida num copo de cachaça nos fins de semana.
Sua esposa,
D. Sabina, tristemente observava o marido quando este chegava caindo do cavalo
e falando asneiras. Que lhe restava fazer senão ajudá-lo a descer e dar-lhe um
leito até que passasse a bebedeira? Conselhos?! Não adiantava! Já nem tentava
mais. Nunca seria ouvida! Se ao menos tivesse esperança de que isso acabaria
algum dia... Mas ela não sabia. Não poderia saber nunca até quando aquele pobre
coitado com quem partilhara sonhos e ilusões de uma vida melhor continuaria
aquele suicídio lento e doloroso, e isso era o mais triste da história.
Foi nesse
clima de tensão e frustração que nasceu Constâncio. Sua infância foi marcada
pelo descontentamento de ver uma mãe triste e desiludida com a vida, sempre
calada, pelos cantos da casa, sem ao menos saber o que fazer para remediar a
situação. Se ao menos pudesse fazê-la sorrir... Mas nunca conseguia tirar mais
do que um “HUMM!” com seus gracejos e piadas. Foi crescendo sonhador e cheio de
esperanças. Achava que o mundo era uma grande bola dourada. Sonhava em ser
alguém na vida, estudar, trabalhar muito, conquistar fortuna e ser famoso.
Gostava de ler e lia tudo o que lhe caía nas mãos. Amava os livros e sonhava
que um dia seria escritor. Escreveria a história de seus pais como um drama
muito sensível. Venderia muitos livros e ficaria rico e famoso. Daria então aos
seus pais todo conforto que eles ainda não conheciam. Nunca mais veria seu pai
em situações embaraçosas e tristes. Detestava vê-lo humilhado concordando com a
cabeça com tudo que o patrão lhe ordenava do alto do seu cavalo, ou de dentro
do seu carro. Um dia seu pai também teria um carro e seria presente seu. Teriam
uma linda e grande casa na cidade e comprariam tudo que tivessem vontade.
Vivia este
jovem com tais ideais em seus pensamentos quando seus pais resolveram mudar
para a cidade. Ele contava dez anos de idade e frequentava a 4ª série. Tudo
corria bem em sua vida de garoto, se bem que, às vezes, o tempo fechava em sua
casa. Seu pai era um homem muito bravo e sua mãe uma mulher tímida e medrosa
que só reagia contra a violência quando o marido chegava bêbado.
O pai, seu Inocêncio, não se sabe por que cargas d’água resolveu sair com essa de mudarem-se para a cidade. A mãe, achando por bem estarem perto de algum vizinho que lhes prestasse socorro em caso de briga, ou mesmo de enfermidade, concordou logo. Imaginava também que na cidade seu Inocêncio daria outro rumo para sua vida e, apesar das contradições da vida, nisso ela estava certa.
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