Capítulo II
O
acidente
Mudaram-se num dia chuvoso e frio. A casinha do sertão foi ficando cada vez mais longe como um mito de saudade, enquanto o caminhãozinho, um Chevrolet gigante à gasolina que transportava a mudança, patinava na lama escorregadia e balançava de um lado para o outro na estradinha. A chegada na cidade foi deliciosa. Aquele aroma suave de doces e extrato para sorvete misturado com cheiro de gasolina, os veículos que embora sendo escassos, transitavam de um lado para outro, carroças, troles e semi-troles, lojas bonitas, pessoas transitando para cima e para baixo, ruas pavimentadas, quarteirões e esquinas, praças e terrenos baldios... Tudo era novo e lindo. Era uma nova vida que estava nascendo para todos que, como ele, era sonhador, morava na terra e vivia nas nuvens, se encantava com tudo que era belo e diferente.
*****
Na nova casa, na rua São Pedro, foi um tropel
arrumar as coisas e descarregar a mudança do caminhão sob aquela neblina fria.
Mas, enfim, tudo guardado, dona Sabina tratou de preparar o jantar para os
filhos e o marido, e mandou todos ao banho. No dia seguinte, levou Constâncio
ao Grupo Escolar de Viradouro onde efetivou sua transferência da escolinha da
fazenda.
Nessa escola
tudo era diferente daquilo que Constâncio conhecia. Havia mais requinte nos
professores bem apessoados, gentis, tratáveis e corteses. Os professores do
sítio pareciam haver assimilado o ambiente rural, na maioria das vezes
grosseiros, sem muita paciência e nem disposição. Até a aparência era meio
grotesca. Dizem que o ambiente faz a cena e muitas vezes nos deparamos com essa
realidade pela vida.
Constâncio
fez logo amizade com todos os que lhe deram oportunidade. Por ser uma pessoa
simpática e agradável, ele ficou logo conhecido. Também demonstrava grande
interesse quando os professores debulhavam as espigas do saber. Constâncio era
muito estudioso, e dedicava-se sobremaneira aos livros. Ele tinha um sonho,
vencer na vida, e lutaria com todas as suas forças para conseguir isso. Nada do
que ele conhecia o faria desistir. Nada, a não ser alguma coisa surpreendente e
inesperada ou desconhecida.
Depois da
aula, voltava para casa, fazia a tarefa escolar, a tarefa doméstica e saía
pelas ruas à procura de alguém para brincar. Gostava de jogar bolinhas de gude,
rodar pião, empinar pipa e outras brincadeiras que estavam em uso na época. Em
pouco tempo havia conhecido quase todos os meninos da redondeza e tinha muito
prestígio entre todos eles.
Foi num dia
desses que encontrou o Joãozinho e cismaram de ir jogar bola na outra rua.
Prepararam as traves, escolheram o grupo e fecharam o tempo. Estavam tão
distraídos naquela disputa acirrada que nem viram quando aquele carro virou a
esquina a toda e quando deram por fé o Marquinhos estava caído, o carro parado,
virado para a calçada e uma gritaria infernal das crianças, todas assustadas.
Uma moça estava atarantada entre o carro e a criança. Mãos na cabeça, a
expressão aterrorizada e sem saber o que fazer.
- Meu Deus!
Eu matei aquele menino! E agora? O que é que eu faço? Vou ser presa! Meu Deus!
Era loira, e
era uma dessas que trazem o requinte de uma mulher bonita por natureza. Cabelos
compridos, cacheados, rosto oval, olhos brilhantes e uma expressão de ternura
que, apesar do terror que a possuía, conseguia implantar alegria em qualquer
coração desconsolado. Isso não passou despercebido a Constâncio, que logo se
aproximou dela:
- Calma,
moça. Não deve ser nada grave. Foi só uma pancadinha. Por que não o leva ao
hospital?
- Sim! Sim! É
isso mesmo. Vamos levá-lo já. Ajude-me, por favor! Preciso socorrê-lo! Ajude-me
a pegá-lo.
Ela estava
sozinha. Suas mãos tremiam, seus joelhos batiam e ela parecia não saber o que
fazer. Alguns meninos carregaram o Marcos inconsciente para dentro do carro.
Depois todos se afastaram e ficaram olhando. Foi quando ela chamou Constâncio:
- Por favor,
menino, não pode ir comigo? Não conheço nada por aqui. Sou nova e nem sei onde
é o hospital. Se você for comigo, depois eu o deixo em casa.
- Está bem!
disse ele entrando no carro. – Nunca tinha visto uma mulher dirigindo, disse
ele. Ficou observando atentamente. – Você dirige bem, observou. – Siga até a
próxima esquina e depois vire à direita. Siga sempre em frente que vamos acabar
saindo no hospital.
Ela dirigia
nervosa e assustada. Ele, entretanto, observava o belo vestido de cetim
comprido enquanto ela fazia as trocas de marcha. Como era lindo ver uma moça
dirigindo tão bem assim.
Deram entrada
com Marcos no hospital.
Logo que
chegaram, o médico examinou o menino e cuidou das poucas feridas. Enquanto ele
atendia o Marcos, Natália, que assim se chamava a moça do carro, tentava
relaxar conversando com Constâncio, mas suas palavras não pareciam fazer muito
sentido, pois ela estava apavorada. Esfregava as mãos a todo momento demonstrando
um receio profundo das consequências e olhava para a porta da enfermaria sem
parar. Constâncio estava bem, mas, de repente começou a se sentir acanhado por
causa da pobreza que as roupas revelavam, e foi se encolhendo no canto, ficando
cada vez mais inibido. Ele nunca tinha observado as belas e extravagantes
roupas que certas pessoas usavam, mas tinha observado enquanto Natália dirigia
seu carro, e isso causava uma reação estranha que ele nunca tinha sentido antes.
Agora, olhava para as suas e começava a sentir ridículo. Elas pareciam ter sido
sempre ótimas para um menino brincar nas ruas, mas agora havia algo estranho
dentro dele. Alguma coisa como vergonha, timidez, acanhamento, uma coisa que
ele nunca tinha sentido antes e sentia agora com tanta força que estava a ponto
de sair correndo dali para não ser visto por ela daquele jeito. Queria ser como
o médico que os atendeu: alto, forte, elegante e bem vestido. Além do mais, ele
era um homem confiante e bom de conversa. Apaziguou-os e foi cuidar do menino.
“O que é isso
que está acontecendo? Por que estou com vergonha dessa moça? Todos os meninos
da minha rua são pobres como eu e ninguém se envergonha disso! E eu nunca me envergonhei
também! Por que isso agora? Que coisa estranha é essa que estou sentindo? Que
vontade de chorar! O que será que eu tenho? To com vontade de sair daqui! De me
esconder dessa moça. Mas também tenho vontade de ficar. Não entendo o que se
passa comigo. Nunca me senti tão confuso assim.”
Sentia uma
afeição estranha pela moça que o tratava como a um adulto, e não sabia que ela
precisava confiar em alguém nesse momento de insegurança, conversar, distrair,
encontrar uma fonte de segurança, e quem estava mais próximo dela era
Constâncio. Daí, o tratamento involuntário, inconsciente para com o homem
Constâncio que lhe transmitiria confiança, uma confiança que ela necessitava
para lidar com aquela situação embaraçosa, com aquele medo das consequências,
as consequências de um destino insólito que a deixara numa pior. Temia pela
vida do menino, por alguma sequela do acidente na vida do pequeno, pelos
remorsos que a invadiam agora por não ter sido mais cuidadosa, e precisava
muito de um ombro amigo, de alguém que a ouvisse e lhe dissesse palavras de
ânimo e a fizesse acreditar que tudo daria certo, que o menino se salvaria, e
que sua família também ficaria muito bem.
Ele estava
apreciando muito aquele momento, é claro, embora, inconscientemente, soubesse que
aquilo seria passageiro.
Entretanto,
apesar de estar gostando demais daquela situação constrangedora, ele fechou-se
em si mesmo. Não tinha resposta para tudo que ela perguntava, e quando tinha,
lembrava-se de suas roupas tristes e surradas, sua condição humilde e simples
diante daquele espelho de luxo, beleza e elegância. Era como se estivesse nu e
em vão tentava tapar-se com as mãos, ou como se estivesse diante de um espelho
que refletisse uma imagem contrária a que estava se expondo.
Nisso, o
médico apareceu e o salvou daquela situação difícil, e deu a notícia de que
estava tudo bem com o garoto. Natália exultou de contentamento. Saltou e
gritou: aleluia! E até abraçou Constâncio feliz e aliviada. Ele, contagiado
pela alegria, deixou-se iludir com o pensamento de que a festa era para ele e
também festejou com ela. Mas havia algo estranho naquilo tudo e Constâncio logo
percebeu. Era a rainha abraçando o plebeu. Demais disto ele contava apenas onze
anos, enquanto ela já tinha os seus vinte. Quem ou o que despertou tais sentimentos
em seu coração? Ele nunca tinha abraçado uma moça com tanta liberdade. Aliás,
nunca tinha abraçado ninguém. É claro que aquilo era uma alegria momentânea e
ficaria só naquilo, mas Constâncio era sonhador e vivia no mundo da fantasia.
Logo, foi criado um novo mundo na mente de Constâncio. Um mundo onde ele era o
rei e Natália, a rainha. E foi assim que o devaneio começou.
Desse dia em
diante, Constâncio não seria mais um menino. A fase da infância há muito tinha
ficado para trás e ele nem tinha percebido. Ele agora seria um homem porque
brotava dentro dele o sentimento do amor. É claro que o termo ainda era
estranho para ele, mas logo se acostumaria, porque o sentia pulsando forte
dentro do peito. Esse evento mudaria para sempre sua vida e ele nunca... nunca
mais seria o mesmo.
Natália os
levou para casa em seu fusca, deixou-os como quem cumpre o dever e depois
seguiu seu caminho. Deu um tchau feliz e aliviada, sem ao menos perceber o
olhar triste causado pelo fim de um momento de intensa felicidade. Se ela
olhasse pelo retrovisor veria um rosto magoado e cheio de saudade de um homem,
Constâncio, que acabara de nascer e que, mesmo inconsciente, já estava perdidamente
apaixonado por ela. Ela nem sequer percebeu o quanto havia marcado a vida daquele
garoto que jamais seria o mesmo e jamais a esqueceria.
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