Capítulo III
Febre de amor
Muita coisa mudou na vida de Constâncio. Não andava
mais de qualquer jeito e nem se misturava mais com a molecada que estranhava a
ausência de Constâncio e se perguntavam o que teria acontecido porque ele não
brincara mais com eles. Ele mesmo não sabia. Apenas sentia que o desejo de
jogar bola, empinar pipa, correr na rua não existia mais. Gastava muito tempo
no banho e quando saía, ficava muito tempo na frente do espelho. Porém, tudo
isso parecia uma coisa muito sem sentido para ele. Alguns dos que estavam
presentes no acidente de Marcos diziam que ele ficara traumatizado, mas a
verdade é que ele ficara doente do coração, doente de amor. Sentia uma febre
queimando-lhe o rosto. As mãos suavam e o pulso acelerava quando se lembrava de
Natália, e não podia entender. Sentindo necessidade de desabafo contou a sua
mãe num certo dia o mal que estava lhe atormentando. Dona Sabina pôs-se a rir
do seu filho.
- Não
acredito. Você está apaixonado?! Nessa idade, Constâncio?!! Tem pouco mais de
onze anos. Se gostasse de alguma menina da sua idade, isso seria bastante
natural, mas gostar de uma moça formada. E os sintomas que te afligem, meu filho,
são realmente de alguém apaixonado.
- Mãe, não
conta isso pra ninguém, tá? Tenho vergonha. As pessoas vão rir de mim.
- Não preciso
contar, filho. Seu rosto conta tudo direitinho. Mas não tenha vergonha. É bom
ser sentimental. Só acho um pouco cedo pra você. E sei que por isso vai sofrer
um bocado, mas tudo passa. Não se preocupe. Até que você cresça, vai se
apaixonar muitas vezes. Vai amar muito e será amado também. O amor é a coisa
mais importante que pode acontecer na vida de alguém, meu filho.
- Sim. Mas o
que faço pra que isso passe logo?
- Nada. Não
adianta fazer nada e tudo o que fizer será pior. Tudo passa com o tempo. Passa
sozinho. Quando menos esperar, já terá esquecido tudo.
Porém,
Constâncio continuou pensando
Natália,
porém, seguia seu destino, sem ao menos se lembrar do incidente. Nessa época,
ela tinha um namorado que a levava sempre ao Rotisserie, um restaurante italiano
que era bem frequentado, principalmente pela juventude nos finais de semana.
Uma noite,
quando Constâncio voltava da casa de um tio onde havia ido levar um recado,
passou por ali e viu os dois de braços dados entrando no Rotisserie. Entrou
também. Observou que eram namorados, mas não se importou. Na verdade, ele
sabia, mesmo inconscientemente, que jamais teria qualquer oportunidade. Logo
eles se casariam, teriam filhos e viveriam felizes o resto da vida sem ao menos
saber que ele existia. Em parte, isso era verdade, pois Natália nem sequer o
tinha reconhecido e nem se lembrava mais dele.
Ele, porém,
ficou sentado num canto, observando o casal conversar baixinho e sorrir sempre
sem dar pela sua presença. Aquilo virou rotina na vida de Constâncio. Saía de
casa para ir ao Rotisserie e voltava cabisbaixo, triste e pensativo. Algumas
vezes, porque não dera sorte de a encontrar e outras porque os via sempre tão
juntinhos. Queria estar no lugar daquele homem, ser ele, estar com ela, amar
aquela mulher, ser importante para ela... Mas tudo aquilo era somente um
devaneio! No entanto, Constâncio acabou se acostumando a ele, e o acalentava
com todo carinho.
Um dia, eles
não apareceram mais no Rotisserie. Passaram-se dias e semanas e nada daquele
casal de braços dados sentando-se a uma das mesas e ficando a trocar beijinhos
que matavam o Constâncio de um ciúme louco e inconsciente. Ele voltou ao
ambiente para procurá-los durante o dia para ver se haviam trocado de horário,
mas nada. Voltou à noite. Não encontrou ninguém. Um mês depois, Constâncio encontrou
Natália na sorveteria Central, mas ela estava com algumas amigas, e nem sinal
do namorado. Teriam rompido? Ele não sabia, mas estava tão feliz por revê-la.
Aproximou-se dela e conversou com ela. Ela já não se lembrava dele. Então com
muito esforço conseguiu lembrar-se do acidente, trocou duas palavrinhas sem
entusiasmo com ele e foi embora. Mas ele estava todo feliz! Você pode imaginar!
A saudade que sentia sendo removida de um terno e amante coração pré-adolescente.
Depois disso, ele conseguiu descobrir a casa onde ela morava. Então um
itinerário constante de ida e volta em frente a casa dessa mulher foi
inevitável. Passava sempre afoito para vê-la sentada na varanda lendo um livro.
Ela nunca o via. Ou se via, fingia o contrário. Mas um dia...
*****
Um dia, ele a encontrou perto do ponto de ônibus.
Ela estava de viagem não se sabe para onde. Passou por ele sem o reconhecer,
ou, pelo menos, se o viu, fingiu não conhecê-lo e desapareceu no meio de uma
pequena multidão aglomerada em volta do ônibus. Constâncio ficou olhando de
longe, enquanto o veículo conduzia sua bem amada para um destino e um tempo
ignorado. Desde esse dia, ele definhou a olhos vistos. Sua mãe atribuía isso ao
crescimento, à adolescência, mas nunca tomou conhecimento do que realmente se
passava com ele. Ela não perguntou; ele também não tinha ânimo para contar-lhe.
Ficou sozinho com todo aquele peso.
O tempo passou lento e pesaroso e ele nunca mais
viu, nem teve notícias de Natália. Alguns anos depois, ele começou a trabalhar
numa oficina de automóveis. Chegava aos quatorze anos e nunca mais vira Natália,
mas ela ainda frequentava seus sonhos de menino. Toda noite ele a via mais bela
e mais majestosa do que nunca. Ao acordar somente o desespero de quem sonha em
vão e não se conforma com a dura realidade. Nessa idade, começou a fumar.
Influenciado pelos colegas, e sentindo não ter o que fazer, achou que seria uma
boa para mostrar para todos que era um adulto. Era, na verdade, um passo seguro
para as drogas. Aos quinze, começou a frequentar a sociedade. Havia perto de
sua casa uma praça onde o pessoal se reunia nos fins de semana como ponto de
encontro da juventude. Nessa época ele estava fazendo a 8ª série e havia
conhecido o Júnior, uma pessoa bem humorada e descontraída, com quem se
identificava. Combinaram que iriam juntos e no sábado fizeram o primeiro
passeio. Depois desse, outros se repetiram e tornaram-se rotina. O ambiente era
interessante. Havia muitas moças bonitas e elegantemente vestidas que passeavam
entre o pessoal. Era de se imaginar que Constâncio gostaria daquele ambiente.
Ali era possível pensar na Natália como um sonho do passado e sonhar novas
fantasias. Todavia, era doloroso pensar em Natália como passado. Era como se a
tivesse, e a perdesse de repente. Mas o que se pode fazer? O que não tem
remédio, remediado está! E procurando esquecer as fantasias impossíveis,
Constâncio começou uma nova etapa de sua vida.
Naquele ponto de encontro, ele conheceu muitas
garotas, e como era naturalmente agradável, fazia amigos com muita facilidade.
Depois de algum tempo, ele conheceu Simone.
Ela era uma
moça bonita, educada, simpática e muito agradável. O relacionamento foi
simples, rápido e sem embaraço. Começaram a namorar. Duas crianças
descobrindo-se como adultos prematuros. Tudo foi muito bom, esse namoro simples
e natural, mas não durou mais do que um mês. Ela não apareceu mais, não deu
nenhuma explicação e ele também não a procurou. Não se interessava, na verdade.
Foi bom enquanto durou, mas não tinha importância se terminava. Nessa pausa,
uma imagem voltou a habitar em sua mente. A imagem da fada: Natália, um sonho
impossível. “Loucuras,” pensava ele! “São loucuras, mas eu daria qualquer coisa
para realizar esse sonho!”
A rotina
continuou em sua vida. Num domingo, Constâncio foi visitar uns parentes que
moravam em uma estância a uns dez quilômetros da cidade. Era uma propriedade
muito bonita. Tinha a entrada toda ladeada de coqueiros e flores silvestres. A
casa era muito bem desenhada. Contava com uma varanda extensa e modulada em
arcos góticos com uns desenhos marcantes em cada um deles. No fundo, tinha um
celeiro onde se guardava a ração dos animais, e ao lado, um barracão onde
ficavam as ferramentas da labuta e as máquinas. Tinha um mangueirão logo mais
abaixo com uma criação de porcos já bem numerosa. À frente da casa estendia-se
um pasto comprido caracterizado por moitas de juá. Bem lá no meio havia um
princípio de capãozinho de mato, com alguns eucaliptos, farinhas-secas e também
um amendoinzeiro. Do meio desse emaranhado saía um cipó entrelaçado às árvores
com as flores desabrochando e ia encontrar-se com as flores de São João num
abraço terno e afável no qual se lia a poesia e o romantismo da mãe natureza.
Era uma vista impressionante e toda vez que Constâncio ia lá dava uma volta à
cavalo com os primos admirando aquela paisagem maravilhosa e encantadora.
Muitas vezes, enquanto passeava por ali, sonhava como seria bom se algum dia
pudesse levar Natália para passear naquele lugar romântico e belo.
Lá da
varanda, sentado confortavelmente numa cadeira de preguiça, observava o natural
quadro que somente o mais hábil escultor poderia forjar. Estava deliciando seus
olhos com aquele licor da natureza, quando de repente foi chamado à realidade.
Como quem dormia e sonhava profundamente, ele voltou-se assustado. Era sua tia,
uma mulher bastante jovem ainda e muito bonita.
- Ei, está
sonhando? Então acorde que quero lhe apresentar a Carolina, uma prima que você
ainda não conhece. Ela quer dar uma volta a cavalo, mas os meninos saíram todos
para buscar uma máquina que o seu tio comprou, e eu pensei que você poderia
acompanhá-la.
- Claro que
sim, tia. Com muito prazer.
- Bem, como
vocês ainda não se conhecem, quero que sejam amigos. E voltando-se para Carolina:
Constâncio é muito comunicativo. Sei que serão bons amigos.
Constâncio
passeou toda a tarde com Carolina que ainda não tinha visto as maravilhas
daquele lugar. Desceu ao capão com ela, ladeando a passo de cavalo pela bela
gramagem, contornando em seguida, a lavoura do seu tio com toda a plantação que,
novinha, mal brotava da terra. Depois voltando a contornar o capão, ele a levou
à fonte que despencava de uma alturazinha de dois metros. A fonte era uma visão
encantadora naquela hora da tarde, quando o sol batendo seus raios na água
cristalina formava lindo arco-íris nalgumas rochas engastadas ao lado da
nascente.
Ali tomaram
água, lavaram as mãos e sempre sorrindo e conversando, montaram e continuaram
cavalgando em volta do capão. Depois regressaram à estância quando o sol já
avermelhava as colinas. Carolina era uma menina de quinze ou dezesseis anos,
morena alourada, com olhos azuis e um sorriso matreiro. Tinha a voz macia e
suave como o canto das aves na primavera. Não foi, portanto, sem razão, que
Constâncio, que buscava uma resposta para a sua indagação, visse nela uma fonte
de alegria, ou um sonho futuro, ou mesmo a felicidade. Mas tudo não passou de
uma sugestão de pensamento que ele não quis expressar. Tímido e medroso
calou-se intimamente. Lembrou-se de Natália, do jogo de futebol na rua, do
Marcos caído e Natália desesperada gritando: “Eu matei aquele menino”; do
pronto socorro, do médico, da alegria dela quando soube que o menino estava
bem. Era apenas um relance da lembrança que o subconsciente projetava em sua
mente tão saudosa. Por que tinha que acontecer com ele? Porque não foi outro a
ajudar a socorrer o colega? Por que o destino lhe pregava essa peça e não lhe
devolvia a alegria de viver e a liberdade de escolha de quem deveria ser o seu
amor como o de todo mundo? Antes tinha lhe imposto esse cativeiro amoroso até
mesmo antes da hora e ainda agora não encontrava paz para sua alma.
- Até a
próxima, Constâncio. Gostei de conhecer você. E o passeio também foi muito
agradável. Obrigada. Espero vê-lo em breve.
Ele voltou de
seus devaneios de repente. Deu de cara com Carolina que se despedia. Respondeu
e despediu-se de todos, voltando para casa. Era um jovem marcado pelo destino
para ser mais um mártir do amor, que embora parecesse tão belo, era cruel demais
com tão sensível criatura.
A noite caiu
quando ele chegou a sua residência. A noite parecia vir sempre trazer a
angústia como um remédio noturno, sem o qual não conseguiria adormecer. Depois
do banho, o jantar, dava um beijo na mãezinha e recolhia-se no seu quarto.
Poderia gastar algum tempo vendo TV, mas isso seria uma raridade, pois seu
programa favorito era sempre criado pela sua fértil imaginação.
*****
Apesar de não aceitar a idéia facilmente, Constâncio
gostou muito de Carolina. Ela era uma jovem alegre e muito simpática. Qualquer
pessoa agradável torna-se bonita e pode perfeitamente preencher algum vazio sentimental,
principalmente quando não se tem esperanças de conquistar a pessoa amada. Assim
foi que Constâncio logo se lembrou dela com saudade, e desejou vê-la novamente.
O único problema que enfrentava era a lembrança amarga de uma mulher idealizada
que não foi nada. Nada! Como doía pensar assim! Ela poderia ter sido tudo: a
rainha, a princesa, os sonhos, o amor, a felicidade, o sorriso, a vida,
enfim... Mas preferiu ser nada. O que ia fazer? Ia sofrer a vida toda por causa
de quem nem sequer sabia que ele existia? E por que era tão importante assim
aquela mulher? Por que tinha que ser ela?
- Isso não é justo – dizia ele. Por que teve de acontecer
comigo? Por que gostar de alguém que não gosta de mim? – Na verdade, aquilo já
tinha virado um amor obsessivo.
Mas num final de semana sua tia convidou toda a
família para uma festinha de aniversário que um dos primos faria no próximo sábado.
E lá foi ele sem ao menos imaginar que Carolina o estaria esperando.
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