A união só é possível para
aqueles que são únicos em sua singularidade.
Margaret Fuller
Muitas pessoas andam desesperadas por encontrar uma alma gêmea, alguém que corresponda à sua imagem de amor e de intimidade. Vão longe em busca de pessoas e gastam tempo considerável sentindo-se dolorosamente privadas das alegrias de intimidade que imaginam. Tal atitude pode ser resumida numa queixa frequente: Quando irei encontrar a pessoa certa para mim?
Tal
abordagem do amor parece refletir o narcisismo dos tempos. Quando é que vou
conseguir aquilo de que necessito para meu crescimento e para minha satisfação?
Uma alternativa poderia ser dar toda a atenção à sua própria vida - desenvolver
os próprios talentos, educar-se culturalmente, simplesmente tornar-se uma
pessoa interessante - ou então a uma sociedade carente. Essa preparação de vida
é um meio positivo de preparar a si mesmo para a intimidade.
O
ensaio “Woman in the Nineteenth CenturY” [A mulher do século XIX], de Margaret
Fuller, escrito em 1844, é um raro exemplo de profunda reflexão feminista
vinculada aos antigos ensinamentos neoplatônicos a respeito da alma. Suas
observações se aplicam tanto aos homens quanto às mulheres, tanto à sociedade
quanto aos indivíduos e tanto à nossa situação atual quanto à dela. Ela estava
plenamente consciente da tendência de buscar a vitalidade da alma
exclusivamente no relacionamento com outra pessoa à custa da própria
individualidade. No mesmo ensaio escreveu: “Caso um indivíduo se entregue
exageradamente ao relacionamento, a ponto de passar a desconhecer os recursos
de sua própria natureza, ele cai, depois de algum tempo, numa perturbação, ou
numa imbecilidade, da qual só poderá ser curado após um período de isolamento
que lhe conceda um tempo de renovação para voltar a crescer”.
Ao
mesmo tempo, Margaret Fuller foi capaz de uma intensa e frutuosa intimidade,
como no seu relacionamento, por vezes tempestuoso, mas sempre criativo, com
Ralph Waldo Emerson.
Frequentemente
tenho oportunidade de visitar a cidade de Groton, Massachusetts, e a cada vez
fico pensando em sua famosa cidadã Margaret Fuller, recordando como ela, das
mais diversas maneiras, conciliou os opostos em sua rica e trágica vida.
Devotou-se à sua própria educação, ao envolvimento com o mundo da política e à
reflexão profunda sobre a alma. Foi capaz de uma extraordinária amizade porque
foi ardorosamente uma pessoa movida por suas paixões. Foi uma mulher de extrema
imaginação e coragem.
Ter
amizades profundas e relacionamentos expressivos é resultado de viver a própria
vida com seriedade e dedicação. Fuller acrescentou uma condição ainda mais
exigente: ser capaz de viver no isolamento, em celibato. “Para se adequarem aos
relacionamentos no tempo, as almas, tanto a do homem quanto a da mulher, devem
ser capazes de se arranjar sem eles, no espírito. ” O tempo que se gasta
sozinho, a experiência de ser solitário, o espírito de celibato, tais aspectos,
também, podem ser deliciosos para a pessoa que está em busca de uma existência
cheia de vida, e podem ser elementos importantes para que se estabeleça um
casamento ou uma amizade. Eles fazem parte da procura de uma alma gêmea, porque
acima de tudo é preciso que todos tenham alma.
A
capacidade de solidão é um pré-requisito para a intimidade com outrem. De outra
forma, pode muito bem ser que a procura desenfreada por um companheiro seja
meramente expressão de um vazio pessoal e, se for esse o caso, qualquer
relacionamento estará fundado sobre sol instável e não irá satisfazer o anseio
de união. A expressão alma gêmea pode significar uma parceria em que a alma se
envolve, em que a alma de um se liga a do outro. Isso não é coisa pouca, e
postula algo bem mais profundo do que a resolução de uma simples busca por
romance. Parte daquilo que constitui nosso anseio por uma alma gêmea é a
intimidade recíproca e a expressão de nossa própria alma.
MOORE, THOMAS, O Self
original – Meditações. Editora Versus, pág. 155-157
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