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quinta-feira, 16 de junho de 2022

O Caminho Para Encontrar Uma Alma Gêmea É Ser Uma Pessoa Com Alma

A união só é possível para aqueles que são únicos em sua singularidade.
Margaret Fuller

Muitas pessoas andam desesperadas por encontrar uma alma gêmea, alguém que corresponda à sua imagem de amor e de intimidade. Vão longe em busca de pessoas e gastam tempo considerável sentindo-se dolorosamente privadas das alegrias de intimidade que imaginam. Tal atitude pode ser resumida numa queixa frequente: Quando irei encontrar a pessoa certa para mim?

Tal abordagem do amor parece refletir o narcisismo dos tempos. Quando é que vou conseguir aquilo de que necessito para meu crescimento e para minha satisfação? Uma alternativa poderia ser dar toda a atenção à sua própria vida - desenvolver os próprios talentos, educar-se culturalmente, simplesmente tornar-se uma pessoa interessante - ou então a uma sociedade carente. Essa preparação de vida é um meio positivo de preparar a si mesmo para a intimidade.

O ensaio “Woman in the Nineteenth CenturY” [A mulher do século XIX], de Margaret Fuller, escrito em 1844, é um raro exemplo de profunda reflexão feminista vinculada aos antigos ensinamentos neoplatônicos a respeito da alma. Suas observações se aplicam tanto aos homens quanto às mulheres, tanto à sociedade quanto aos indivíduos e tanto à nossa situação atual quanto à dela. Ela estava plenamente consciente da tendência de buscar a vitalidade da alma exclusivamente no relacionamento com outra pessoa à custa da própria individualidade. No mesmo ensaio escreveu: “Caso um indivíduo se entregue exageradamente ao relacionamento, a ponto de passar a desconhecer os recursos de sua própria natureza, ele cai, depois de algum tempo, numa perturbação, ou numa imbecilidade, da qual só poderá ser curado após um período de isolamento que lhe conceda um tempo de renovação para voltar a crescer”.

Ao mesmo tempo, Margaret Fuller foi capaz de uma intensa e frutuosa intimidade, como no seu relacionamento, por vezes tempestuoso, mas sempre criativo, com Ralph Waldo Emerson.

Frequentemente tenho oportunidade de visitar a cidade de Groton, Massachusetts, e a cada vez fico pensando em sua famosa cidadã Margaret Fuller, recordando como ela, das mais diversas maneiras, conciliou os opostos em sua rica e trágica vida. Devotou-se à sua própria educação, ao envolvimento com o mundo da política e à reflexão profunda sobre a alma. Foi capaz de uma extraordinária amizade porque foi ardorosamente uma pessoa movida por suas paixões. Foi uma mulher de extrema imaginação e coragem.

Ter amizades profundas e relacionamentos expressivos é resultado de viver a própria vida com seriedade e dedicação. Fuller acrescentou uma condição ainda mais exigente: ser capaz de viver no isolamento, em celibato. “Para se adequarem aos relacionamentos no tempo, as almas, tanto a do homem quanto a da mulher, devem ser capazes de se arranjar sem eles, no espírito. ” O tempo que se gasta sozinho, a experiência de ser solitário, o espírito de celibato, tais aspectos, também, podem ser deliciosos para a pessoa que está em busca de uma existência cheia de vida, e podem ser elementos importantes para que se estabeleça um casamento ou uma amizade. Eles fazem parte da procura de uma alma gêmea, porque acima de tudo é preciso que todos tenham alma.  

A capacidade de solidão é um pré-requisito para a intimidade com outrem. De outra forma, pode muito bem ser que a procura desenfreada por um companheiro seja meramente expressão de um vazio pessoal e, se for esse o caso, qualquer relacionamento estará fundado sobre sol instável e não irá satisfazer o anseio de união. A expressão alma gêmea pode significar uma parceria em que a alma se envolve, em que a alma de um se liga a do outro. Isso não é coisa pouca, e postula algo bem mais profundo do que a resolução de uma simples busca por romance. Parte daquilo que constitui nosso anseio por uma alma gêmea é a intimidade recíproca e a expressão de nossa própria alma.

 

MOORE, THOMAS, O Self original – Meditações. Editora Versus, pág. 155-157

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